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Simon Pitel

Depoimento de
Simon Pitel

Nascido em Bruxelas, na Bélgica, em 14 de novembro de 1936, Simon Pitel costuma dizer que se pudesse escolher uma nacionalidade, seria brasiliense, tamanho seu amor e carinho pela capital federal. “Meu passaporte não seria brasileiro, ele seria brasiliense. Eu sempre falo que Brasília foi minha segunda mãe e Juscelino meu segundo pai”, celebra o proprietário do Roma, restaurante-ícone da capital.

O interesse de Pitel por Brasília surgiu sem que ele ao menos tivesse sido apresentado ao projeto da nova capital, liderado pelo presidente Juscelino Kubitscheck. Após deixar Bruxelas por um desejo dos pais, em janeiro de 1958, Pitel embarcou no navio Louis Lumiére no porto de Antuérpia e 17 dias depois chegou ao Rio de Janeiro, onde encontrou seu irmão, uma tia e um tio. Mas a temporada em terras cariocas durou pouco. Após se decepcionar com as oportunidades de emprego na Cidade Maravilhosa, Pitel quis voltar para casa. Quando já estava prestes a partir, teve um inusitado encontro com um romeno que o convenceu a ir para as terras que abrigariam a nova capital. Em 15 de abril de 1958, Pitel desembarcava em Brasília, surpreso com o ambiente típico de um faroeste que

encontrou pelo caminho. “Quando cheguei no aeroporto fiquei espantado, era só poeira. A única pista de asfalto era a do aeroporto. Falei ‘eles são doidos, não existe fazer uma capital em quatro anos’. E fizeram”, relembra o empresário.

Pitel tem um dom natural para os negócios. Sem falar uma palavra em português, começou sua vida em terras candangas como camelô. Subia a manga da camisa e oferecia relógios nas ruas do Núcleo Bandeirante, que naquele momento ainda carregava o nome de Cidade Livre. Ele foi vendendo, vendendo e, embalado pela prosperidade que rondava a cidade à época, juntou dinheiro e comprou o direito da loja nº 945 do Núcleo Bandeirante. “Quando Jânio Quadros assumiu, Brasília afundou financeiramente e eu afundei junto. Isso foi em 1961. Em 1962 eu me recuperei porque eu vesti toda a Rádio Patrulha de Brasília e comecei a fornecer roupa para o Governo Federal”. Foi quando surgiu o Roma que, antes de ir para as mãos de Pitel, pertencia a um italiano desde a data oficial de inauguração, em 15 de abril de 1960. No dia 30 de março de 1964, Pitel reabriu o restaurante oficialmente sob sua batuta.

O Roma cresceu, se tornou o rei dos restaurantes, e na década de 1970 ainda era uma das poucas opções gastronômicas da capital, tornando o local um point. Por lá passaram ministros, deputados, senadores, nomes de destaque na cidade, como Paulo Octávio, Fernando Henrique Cardoso, Delfim Netto e Ulysses Guimarães, fornecendo alimentação com frequência para o Palácio do Planalto e para o Palácio da Alvorada. “Se não passou pelo Roma, não viveu em Brasília nos anos 1970”, diverte-se Pitel ao lembrar das noites memoráveis em que reunia boa parte dos pioneiros no seu movimentado salão.

Por ser um dos únicos restaurantes em uma cidade que ainda engatinhava, o Roma inicialmente funcionava como uma espécie de botequim, servindo café da manhã a partir das 7h, e até frango assado aos finais de semana. A partir da década de 1970, o restaurante teria a cara que o acompanha até hoje: um restaurante familiar frequentado por quatro gerações. “O meu maior orgulho é ver o domingo lotado, com lista de espera. Depois de 50 anos, ainda ter fila de espera aos domingos realmente é uma realização. Eu sinto que eu consegui realizar o Roma”, comemora Pitel, frisando que o diferencial do seu negócio é o respeito ao cliente. “O respeito ao freguês faz você sobreviver. Você não pode ser imediatista, tem que plantar e esperar para poder colher. E tem que regar. Ser comerciante não é ganhar na loteria. É um trabalho a longo prazo. Você na verdade quando é dono passa a ser o principal empregado da sua empresa”, afirma o empresário, que esbanja vitalidade aos 82 anos e segue à frente do Roma ao lado da filha e do genro.

Com funcionários com até 40 anos de casa, o Roma segue um clássico da capital, investindo sempre no preparo artesanal dos pratos do menu. Por ali não há micro-ondas, por exemplo, porque Pitel acredita que a industrialização da cozinha mais atrapalha do que ajuda. Famosa, a parmegiana da casa representa 50% das vendas e alimenta cerca de 180 pessoas em um dia cheio. Investir no ramo alimentício parece ter caído no colo de Pitel, que não sabe cozinhar, mas viu no negócio a oportunidade de prosperar na capital federal. Assim como outros pioneiros, o belga soube aproveitar a chance de começar uma nova vida em um local que estava surgindo do zero. “Era um tempo muito bom, muito humano, a gente se ajudava muito. As dificuldades juntam as pessoas”, recorda Pitel. “Muitos pioneiros não estavam aqui por vocação, era por necessidade, a não ser os dirigentes. Juscelino era por vocação, Israel Pinheiro era por vocação. O resto veio por necessidade, por aventura, para fazer a vida, vencer”, enfatiza o belga, que guarda no peito e na memória as marcas deixadas pelo Holocausto e orgulha-se de ser filho de poloneses sobreviventes dos campos de concentração. Brasiliense de coração, Pitel juntou suas recordações e construiu sua própria história fazendo de Brasília sua cidade natal, sempre com sorriso no rosto ao se lembrar do privilégio de ter visto uma capital nascer e crescer.