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Roosevelt Dias Beltrao

Depoimento de
Roosevelt Dias Beltrao

A memória de Brasília tem um guardião irretocável. Trata-se de Roosevelt Dias Beltrão, presidente do Clube dos Pioneiros, um defensor fiel de que todos os pioneiros sejam sempre devidamente valorizados e lembrados, tanto pela população, quanto pelo governo. Nascido em 29 de outubro de 1940, em São João del-Rei, Minas Gerais, Roosevelt começou a labutar ainda na adolescência e dedicou boa parte da sua carreira a trabalhar em bancos. Convidado por dois irmãos que já tinham se instalado em Brasília, mudou-se para a cidade em 1959 e trabalhou para o Banco da Lavoura até 1962. Pela sua ligação com o banco, encontrou abrigo em um alojamento da empresa na Avenida Central da Cidade Livre. Diminuta, sua cama não tinha tamanho suficiente para que repousasse todo o corpo – só ia até o meio das pernas – mas o desconforto não desanimava em nada o empolgado jovem.

Focado no trabalho, o bancário dividia sua rotina entre o expediente na agência com outros negócios. Roosevelt abriu o primeiro supermercado de Brasília, na CNB 1 de Taguatinga, e foi responsável ainda pelo primeiro laboratório farmacêutico da capital. No banco fazia a cobrança dos lotes vendidos pela Novacap e emitia os boletos. Na época tudo era feito à mão. “Passávamos a noite fazendo remessa, Brasília foi vendida para o mundo inteiro. Tinha compradores dos Estados Unidos, da Europa, de todo lado”, destaca Roosevelt, que se lembra ainda de como era calma e segura a Brasília daqueles tempos. “Aqui tinha muito dinheiro, de vez em quando a gente pegava uma, duas, dez malas de dinheiro e levava para Belo Horizonte. Não tinha assaltante, o carro fica aberto”, lembra.

Em 1968, quando Roosevelt deixou o Banco Hipotecário, recebeu um convite para integrar a equipe da Imobiliária Nova York, grupo que lançou o Conjunto Nacional. Dividida em partes, a inauguração do shopping aconteceu paulatinamente. O país ainda engatinhava nesse ramo e só havia um outro exemplar no país, o shopping Iguatemi, em São Paulo. A primeira etapa do Conjunto Nacional foi inaugurada em novembro de 1971 e teve como âncora o extinto Jumbo, hoje Pão de Açúcar. A segunda etapa chamou atenção para a chegada das Lojas Brasileiras e, a terceira, para a vinda da Sears. “Foi um sucesso. O Conjunto era o shopping que mais vendia por metro quadrado e até hoje ele tem o seu lugar na história de Brasília”, comemora Beltrão.

Fundado em 1974 por Juscelino Kubitschek, o Clube dos Pioneiros surgiu para ser um bastião da memória daqueles que dedicaram suas vidas para o nascimento da nova capital. Na presidência do Clube, Roosevelt faz questão de ressaltar a importância do ex-presidente para a a história da Clube e da cidade. “Foi ele quem nos incentivou a criar o Clube dos Pioneiros. Se não fossem os pioneiros, não existiria Brasília”, observa. Juscelino é tão importante para a instituição, que o dia de seu nascimento, 12 de setembro, foi instituído na década de 1980 como o Dia do Pioneiro. “O Brasil deve muito a Juscelino. Ele transformou o Planalto Central em um polo irradiador de progresso para Minas Gerais, para o Goiás e para o Nordeste”, ressalta. Juscelino era visto com frequência por Roosevelt percorrendo a cidade. Segundo o pioneiro, o presidente fiscalizava as obras pessoalmente, e passava visitando tudo de madrugada, com terno, gravata e lencinho no bolso. “Acho que ele não dormia. Ele era um incentivo para todos. Era mais um trabalhando para que Brasília fosse inaugurada no prazo determinado de mil dias”, relembra Beltrão.

Na ausência de um endereço fixo onde possam se reunir, os pioneiros do clube geralmente costumam se encontrar no Iate Clube. Há um terreno no Setor de Clubes Esportivos Norte dedicado ao clube, mas enquanto a escritura definitiva não vem, ainda não é possível fazer nenhum tipo de construção. “Sonho com um documento robusto para que possamos construir a nossa sede”, desabafa Roosevelt, que cobra dos governantes um olhar atencioso para o clube.

Pai de dois filhos, o pioneiro orgulha-se de que suas crias também vistam a camisa do pioneirismo. “Eu me sinto feliz em ver Brasília do jeito que está hoje, embora eu tenha saudades do passado. É um crescimento que nos dá orgulho e alegria. Ter participado do início e ver Brasília no ponto que está hoje”, celebra. Para ele, Juscelino Kubitschek foi um homem de sorte por ter ao seu lado uma equipe extremamente competente, com nomes como Oscar Niemeyer, Lúcio Costa e Israel Pinheiro. “O pé de valsa tinha muita sorte, só arrumou gente boa e a razão do sucesso de Brasília foi essa: o pessoal que integrou o governo do Juscelino”, comenta Roosevelt, que se recorda de certa vez ter ouvido de que Juscelino Kubistchek, ao sobrevoar Brasília em 1962, teria olhado para baixo e dito “Meu Deus, se não fosse o Israel eu não teria conseguido construir Brasília”.

A lembrança se mescla às muitas outras construídas com a capital. Para que nada disso se vá, o Clube dos Pioneiros segue firme e forte nessa missão. “O Clube preocupa-se em preservar a história, preservar os bons momentos e preservar a memória daqueles que fizeram a cidade. Essa é a nossa grande tarefa”, crava Roosevelt, homem que dedica sua vida a honrar cada integrante dessa linda história chamada Brasília.