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Arnaldo Cunha Campos

(In Memoriam)

Depoimento de
Arnaldo Cunha Campos

Brasília tem um caráter tão transformador que é capaz de extrair de uma pessoa até mesmo habilidades ainda desconhecidas. Foi o que aconteceu com o mineiro Arnaldo Cunha Campos, médico de formação, que em determinado momento da vida percebeu que Brasília precisava muito mais do Arnaldo construtor do que do Arnaldo médico. Empresário de sucesso, responsável por um dos maiores complexos do país, o Brasil 21, Arnaldo Cunha Campos nasceu em 27 de abril de 1936 em Uberaba, berço de muitos outros pioneiros que também escolheram Brasília para fincar morada.

Formado pela Faculdade Nacional de Medicina, especializou-se como otorrinolaringologista em São Paulo e visitou Brasília pela primeira vez poucos meses antes da inauguração, em janeiro de 1960. Mas foi só 1961 que Arnaldo se mudaria para a nova capital de vez. Figura central na família, seu irmão Fabiano – o primeiro a se aventurar em terras brasilienses – morreu em um acidente de carro, tragédia que levou o clã de Arnaldo do luto a um sentimento de que eles nunca mais deveriam se desunir. Juntos, todos se reuniram em Brasília e decidiram seguir suas vidas aqui.

Casado com Maria Josina desde abril de 1965, é pai de Ana Luisa, Liliana, Ana Maria e Fabiano, e avô de 11 netos. Com o apoio da família fundou a clínica São Braz no Edifício Mineiro, no Setor Comercial Sul, enquanto ainda atuava como médico da Fundação Hospitalar de Brasília. A área estava em constante crescimento no país. “Quem se formava no Rio de Janeiro ficava por lá. Então, as oportunidades em Brasília eram muitas e grandes”, relembra o empresário.

Com o sucesso da clínica, Arnaldo decidiu impulsionar os negócios em espaços maiores. Decidiu, então, construí-los. Sua carreira no setor imobiliário começou com empreendimentos ligados à saúde, como o emblemático Edifício de Clínicas. Daí em diante, vieram obras em diferentes pontos do DF e em Goiânia, fazendo-o trocar de vez a Medicina pela Construção Civil. “Vi que Brasília, em um determinado momento, precisava muito mais de construção do que mim como médico. Então, apareceram algumas obras que não tinham nada a ver com Medicina. Eu peguei e tive sucesso”, recorda Arnaldo.

O empresário mineiro destacou-se no empreendedorismo desde cedo, quando enxergou na capital um potencial que antes só era empregado às grandes metrópoles. Se a cidade abriga o poder político do país, reúne o maior número de servidores públicos federais e ainda foi capaz de agrupar trabalhadores de todos os estados brasileiros para erguer os pilares de todos esses edifícios, por que não pensar em algo macro? Foi dessa forma que surgiu o maior empreendimento de sua vida, o Brasil 21, um complexo de 200 mil metros quadrados fincado no coração de Brasília. Com hotéis de curta e de longa duração, o negócio multiuso abriga centro de convenções, escritórios, lojas, espaço cultural e os mais variados serviços em um dos pontos mais concorridos da cidade, o Setor Hoteleiro Sul.

Atento às inconstâncias da economia no Brasil, Arnaldo soube desenvolver suas empresas em outros locais para não deixar a peteca cair. Assim, começou a fazer negócios em Portugal na década de 1980 e depois passou a investir nos Estados Unidos, o que deu margem ao visionário pioneiro para manter sua atuação no ramo empresarial tanto no Brasil quanto fora. A estratégia deu certo e Arnaldo tornou-se respeitado nacionalmente por sua capacidade enquanto negociador para além de terras candangas.

O caráter empresário de Arnaldo Cunha Campos sempre caminhou lado a lado com seu pioneirismo, do qual tanto se orgulha a ponto de dizer que se considera brasiliense, um candango de fato. “Saí de Uberaba e adotei Brasília como minha terra”, emociona-se ao se recordar que nos anos iniciais de consolidação da nova capital, não havia muito tempo para se discutir tudo que estava sendo feito. “Tem muitos que contam histórias, tem outros que fazem a história. Nosso negócio era fazer a história”, conta, ao se lembrar dos pioneiros que o acompanharam nessa jornada. Por sua participação ativa na construção de Brasília, Arnaldo foi honrado com um diploma de sócio-fundador do Clube dos Pioneiros, instituição responsável por manter viva a memória daqueles que vieram erguer a cidade.

Um visionário sabe enxergar quando uma mudança é positivamente transformadora. Por isso, Arnaldo sabe o que representou – e representa – para o Brasil a construção de Brasília e consequentemente a interiorização do país. Para o empresário, a cidade não foi só importante para o Distrito Federal. A vinda do poder político para o centro contribuiu para o desenvolvimento de estados como Goiás e Tocantins. E é para Juscelino Kubitschek a quem Arnaldo direciona os louros dessa conquista. Admirador do político, o mineiro-candango acompanhou de perto os altos e baixos do ex-presidente, que costumava visitá-lo com frequência em seu escritório. “Ele teve um apogeu, quando era um grande líder nacional, depois sofreu muita perseguição. Você conhece realmente a pessoa quando essas fases se manifestam. Ele era muito amável, muito afável, sem aquele sentimento de rancor normal de quem sofreu perseguições”, recorda-se.

Suas lembranças com Juscelino remetem ainda ao período em que o ex-presidente recebia amigos na fazenda Santa Júlia para almoços e serestas. “Ele gostava de cavaquinho, o pessoal ia fazer cantoria para ele. Ele era pé de valsa mesmo, não deixava a peteca cair. Toda conversa com ele terminava em otimismo”, admira-se Arnaldo, que observa um fator em comum para o êxito de Brasília: tanto Oscar Niemeyer quanto Juscelino, Lúcio Costa e Israel Pinheiro eram amantes ferrenhos da capital. Nomes ilustres da construção da capital, o quarteto não se diferencia daqueles que, assim como Arnaldo Cunha Campos, empreenderam e construíram suas vidas na cidade dos sonhos. Movidos por um amor único, forjado no desejo de fazer prosperar uma capital que, mal sabiam, se tornaria referência de arquitetura e desenvolvimento para o Brasil e para o mundo.